😘 - thank u, weirdo
Recentemente, eu passei por uma situação um tanto inusitada na minha vida e achei que seria interessante relatar a experiência, aprendizados e percepções, porque envolveu bastante coisa.
Já dando um spoiler do final da história: eu levei o primeiro, mas não surpreendente, migué de um homem.
Tudo começou há um tempo atrás, quando comecei a alimentar uma amizade com um cara que frequenta um mesmo ambiente que eu. Aquela história toda de termos assuntos em comum, gostarmos das mesmas coisas e ele ser bastante carismático e até bastante charmoso. Ele também é mais velho do que eu.
Um belo dia, ele me chamou para tomar um café no final da tarde, mas não moveu um dedo para escolher a cafeteria. Como eu nunca tinha ido ao Starbucks, achei que seria legal ir conversar num calor de 40 graus junto de um café superfaturado. Pra piorar, quando chegamos lá, as bebidas geladas estavam esgotadas, mas pedimos mesmo assim.
A conversa foi mais ou menos. Não lembro dele fazer muitas perguntas sobre mim, mas me olhava o tempo todo. Eu achava até o olhar dele intimista demais, pois ele tem uma personalidade muito forte, o que me deixou muito tímida, mas fiz algumas perguntas a respeito da vida dele. Toda vez que sentava do meu lado, buscava encostar a perna ou o ombro. Pegou meu café para experimentar sem a possibilidade de eu conseguir negar, e me olhou no fundo dos olhos enquanto tomava um gole. No final do dia, olhei pro lado onde ele estava e perguntei se já não estava na hora de irmos embora. Ele aproveitou a brecha pra me beijar.
Ele é um cara de aparência que chama atenção por onde passa. É baixinho (algo que sempre zoava nele), todo tatuado e musculoso, com uma cara de nerd, exalando personalidade. Eu sendo alta, magra, zero tatuagens e querendo passar de despercebida em tudo. Ele atraia olhares por onde passávamos (mas não tanto quanto ele realmente achava que estava atraindo). Não preciso dizer o tanto de gente que não pode ver um desse na rua que chega até a piscar, né? A aparência é sim a primeira impressão, mas eu o julgava mais pelo o jeito dele de ser. Ou pelo menos pelo jeito de ser que ele me permitia conhecer. Não me sentia especial por ter um cara como aquele conversando e andando comigo. Enquanto a maioria deveria falar do físico ou do rosto bonito, eu elogiava os cílios, que são enormes. Falava que parecia de bonequinha.
A partir desse momento, a história começa a mudar um pouco. As conversas se tornam um pouco mais frequentes (e até mais picantes), mas ele ainda tem momentos de sumiço (era frequente levar dias ou até algumas semanas para me responder, e eu nunca cobrei respostas, porque também odeio esse tipo de cobrança). Ele iria se mudar para outro estado e tentei convidá-lo para fazer algumas coisas antes da possibilidade de vai saber quando iríamos nos ver de novo, mas ele nunca podia. Estava sempre cansado demais, ocupado demais, mas prometeu que nos veríamos uma última vez. Ele nunca cumpriu a promessa. Da última vez que tinha tentado chamá-lo era para um concerto que teria dali duas semanas, mas ele não ia conseguir ir pois "me mudo mês que vem". Me fiz de sonsa e falei "ah, é verdade, tinha esquecido!".
Fiquei um mês sem resposta dele. Ele estava conversando comigo e um belo dia simplesmente sumiu. Quando percebi que já fazia tanto tempo, perguntei se tinha morrido e rapidinho ele me respondeu. "Foram semanas muito estressantes, não me culpa". Umas semanas depois eu fui em um show que teve na cidade dele e ele sabia que estaria relativamente perto da onde estava morando. Compartilhei fotos. "Banda de boomer". Por mais que eu estivesse em um bate-volta, nem comentou da possibilidade da gente se ver nem que fosse pra almoçar. Mas tudo bem, eu nunca cobrava nada dele.
Ele já tinha me falado algumas vezes que tinha algumas questões sociais e que é muito narcisista, mas que comigo ele era menos perverso do que com as outras pessoas porque sentia algo que era raro pra ele: empatia. Vivia constantemente se sentindo superior a tudo e todos, dizendo que vivia de máscaras e que tudo para ele era experimento social. Mas de novo, tudo bem, cada um com seus problemas. Eu nunca engoli a máscara de cara super inteligente que tentava passar, então sempre jogava na cara dele os furos de roteiro que eu percebia. Ele era o narcisista e eu a extremamente observadora que estava me divertindo tentando entender até onde ele iria com isso.
Um belo dia, ele me chamou para assistir um filme com ele por call, mas eu tinha que lembrá-lo até o final da semana porque ele "estava ficando velho". Foi divertido e ele ficava fazendo comentários e referências o tempo inteiro. Ele me perguntou: "quando você vem pra cá?", e eu respondi "e o que eu ganho indo aí?', ele "não sei... carinho? amor?". Dois dias depois ele me chamou de novo, e nunca mais me chamou, apesar de ter falado que gostou muito da companhia. Tentei chamá-lo, mas ele sempre desconversava ou me deixava falando sozinha. Como sempre, nunca dava, a não ser que ele me chamasse.
Ele vivia dizendo que eu precisava ser uma loba, ou melhor, que ele precisava que eu fosse uma loba e com mais ambição. Que eu era muito ingênua, mas que gostava disso. Que na verdade eu tinha uma máscara poderosa de menina ingênua. Falava que éramos como Bonnie e Clyde. Que só comigo conseguia conversar sobre certos assuntos. Que só comigo ele podia ser 100% sincero sobre certas coisas.
No meio de conversas, ghostings, risadas, dezenas de áudios trocados e compartilhamento de vida, eu já sabia que estava entrando em um território perigoso: talvez eu estivesse conhecendo ele mais do que ele mesmo gostaria. Talvez eu estivesse começando a alimentar um sentimento além da amizade por uma pessoa que sabia que nunca daria certo, mas estava disposta a ir até onde daria. Já conhecia seus vícios, alguns detalhes da sua família disfuncional (ele mesmo denominou assim), pensamentos obscuros que habitavam a mente dele. Parecia não ter superado totalmente a ex, sempre colocando ela em um pedestal de "foi a melhor pessoa que poderia ter passado na minha vida, era minha melhor amiga", mas "minha natureza não me permitia ser quem ela precisava que eu fosse". Quando rolava algumas comparações, ela sempre vinha primeiro na frase (nunca era "você e minha ex" e sim "minha ex e você"). Um detalhe sutil, mas que já tinha colocado na minha cabeça que eu nunca seria melhor que ela.
Desde o início eu percebi que eu não era tão prioridade assim na vida dele mesmo que como amiga e que ele não era um homem de palavras. Comigo, pelo menos. Como a amizade estava 100% virtual eu não ligava tanto assim, mas meu alerta estava sempre ligado. Comigo nunca tinha tempo ou dinheiro sobrando, mas vez ou outra compartilhava que estava em tal lugar com amigos para um show ou para beber.
Eu sempre tive a impressão que ele tinha muitas mulheres nos contatos e na galeria, mas não que ele estivesse interessada em todas elas, mas sim pra alimentar o próprio ego. Ele também guardava fotos minhas. Uma vez ele chegou a compartilhar que "hoje dei um fora catártico numa mina padrãozinho". Se dar um fora era catártico, o que o mantinha falando comigo por tanto tempo? Será que eu era a que estava mantendo o ego dele nas alturas?
As coisas começaram a ficar um tanto interessantes depois que compartilhei que estava querendo fazer meu primeiro cosplay. Mandei uma foto pra ele, que ficou aparentemente apaixonado pela ideia e foi me chamando para ir em um evento com ele e que poderia até me hospedar na casa dele. De início, meu alerta apitou, porque seria um gasto não planejado em poucos meses e até então ele não tinha mais movido um dedo pela minha companhia. Mas, no fundo, pensei: "se ele me chamou, então talvez tenha chance da gente realmente se ver e eu ir em um evento legal".
Dali pra frente eu comecei a perceber um belo de um love bombing. Dificilmente me deixou mais de 2 dias sem resposta. Começou a compartilhar ainda mais da vida. Dizia que estava ansioso pra me ver, que estava com saudade. "Gosto tanto de você, sua chata", "Você é minha melhor amiga, sabia?", "Adoro você", "Você é diferente das outras pessoas". Por cerca de 3 meses, ele fez parecer que estava realmente animado, um pouco ansioso e me fez também criar uma certa expectativa. Mas o comportamento nunca mudou totalmente. Comecei a comentar dele ter que comprar o ingresso do evento, mas sempre falava "vou ver". "Gastei muito no cartão esse mês, deixa virar?".
Quando eu decidi que iria (pela minha experiência, e não por ele) eu pensei muito antes de enviar o print da passagem comprada. Meu alerta continuava apitando. Quando enviei, não teve grandes reações, parecia que não era nada demais.
De repente, um assunto que se tornou frequente foi sobre cobertor porque ele não tinha por não usar, e se eu dormisse na casa dele (e detalhe, na cama dele) ia precisar comprar um pra mim. Não vi isso como atitude de cuidado, mas sim uma brecha para debochar da cara dele por não ter um item desse. Umas 2 semanas depois dele falar que talvez não chegasse a tempo (dando a entender que ele não ia fazer tanto esforço para comprar um), ele me manda um print da compra que fez do cobertor e mais alguns itens de cama, papo de mais de 3 mil reais naquela compra. Eu só consegui falar "por que você gastou tanto dinheiro com uma coisa que disse que nem usa?". A resposta foi "é que eu quis me presentear depois de ter recebido bons feedbacks do trabalho, sentir como é acordar se sentindo rico e de quebra você também vai poder aproveitar". Entendi...
Faltando poucas semanas para a viagem, algo me dizia que esse cara não iria me ver, por mais que ele tentasse me fazer pensar o contrário. E que eu não deveria confiar totalmente. Era o padrão de comportamento que ele teve todo esse tempo comigo. Por que dessa vez seria diferente? Uma noite, peguei meu celular, abri o Booking e decidi reservar um hotel em uma região próxima da que ele mora.
Na semana da viagem, nós fomos de "você é quase o tipo de mulher ideal pra mim", "é nessa cama aqui que vamos dormir juntinhos" e "não vejo a hora de fazer x, y e z com você" e conversas até tarde no final de semana para completo silêncio. Mais uma vez, ele sumiu.
Os dias foram passando e eu fiquei no vácuo da última mensagem. A única coisa que eu sabia é que ele sabia que eu estava indo e chegava em tal horário. Não cobrei resposta. A essa altura, o silêncio já era uma resposta gritante e não era a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que ele fazia isso. No fundo, tentei acreditar que ele me mandaria algo até a hora que eu chegasse, mas ele preferiu o silêncio.
Foi minha primeira viagem 100% sozinha (não encontrei com amigos por lá). Cheguei, almocei, fiz meu check-in e fiquei totalmente incrédula com aquela situação. Não fiquei com raiva, mas um pouco chateada. É como se eu sempre soubesse que isso iria acontecer, mas não conseguia acreditar. Como um homem da idade dele, que se pinta tanto de superior, ainda consegue agir dessa forma igual um moleque? Quando contei para um amigo meu, ele disse "gente, eu esperaria esse comportamento de um moleque, não de um velho desses".
O meu erro foi ter mandado mensagem no dia que cheguei, já no final da tarde. Mas eu estava tão desacreditada que precisava saber a desculpa que ele daria ou se iria me ignorar por completo. Mandei "é sério que você vai fugir?". E poucos minutos recebi a resposta mais ridícula de todas: "cara, meu vô morreu, estou em outro estado. deu tanta merda, desculpa. nem lembrei".
Ah, sim, ficamos três meses falando disso quase diariamente pra morte de um parente que ele nem tinha mais contato ter impactado tanto na vida dele... E ele não falou mais nada. Não disse quando voltava, não perguntou se consegui um lugar pra ficar. Não perguntou como foi o evento. Não quis nem saber se eu realmente tinha ido. Em algum momento daquela semana, ele decidiu ligar o foda-se pra mim, sem motivos aparentes, depois de ter investido um ano nessa "amizade". Nada fazia sentido. Eu só consegui rir pra tela do celular.
Respondi qualquer coisa, ele respondeu qualquer coisa de volta e eu nunca mais falei com ele por mensagem (e ele também nunca mais me mandou nada). Não me senti idiota, não me senti otária, mas incrédula. Estava em negação de acreditar de que eu já tinha sacado tudo há muito tempo, mas meu lado humano (que aparentemente ele não tem) me fazia acreditar que ao menos éramos amigos. Ninguém investe tantas horas em conversa pra nada, certo? Eu não era a melhor amiga dele?
A verdade é que eu não sei e talvez nunca saiba, mas não importa. O lado ruim de passar por uma situação dessa é que nosso cérebro não sabe lidar com falta de respostas/finais, então começamos a criar diversas possibilidades e questionamentos na cabeça como forma de defesa.
- Será que falei algo? Mas eu sabia que não tinha falado nada demais.
- Será que ele está conversando com outra que achou muito mais interessante do que eu? Mas achava que éramos amigos acima de tudo.
- Será que o avô dele realmente morreu? Mas se fosse meu amigo, ele teria avisado antes.
- Será que ele ficou com medo de não conseguir sustentar o personagem enquanto eu estivesse na casa dele? Mas eu nunca acreditei em personagem nenhum.
- Como a ex namorada dele aguentou quase uma década disso? Será que com ela ele era um pouco diferente?
- Será que eu joguei o jogo dele melhor do que ele mesmo?
Eu não podia deixar minha falta de resposta destruir minha viagem ou mesmo os próximos dias da minha vida. Toda vez que minha cabeça tentava descobrir ou criar motivos eu me forçava a entender que o motivo não me interessa e não justifica o que ele fez comigo.
No fim, a viagem foi bem legal e cheia de aprendizados, apesar de ter tido gastos financeiros maiores. Estava em uma cidade que mal conheço, em uma região em que as pessoas que moram ali tem uma condição de vida melhor que a minha (o aluguel mais barato por ali sendo maior que meu salário). Eu olhava pela janela, principalmente à noite, com todos os prédios e luzes acesas e pensava "um dia quero ter condição de morar em um lugar assim se eu quiser". Saí para jantar sozinha pela primeira vez em um rooftop. Eu era a única que não tinha companhia ali e percebia uma atenção um pouco exagerada das garçonetes (apesar de uma delas ter achado super legal o fato de eu ter ido sozinha), sempre perguntando se estava tudo bem, se eu realmente não estava esperando ninguém.
Saí do hotel com o cosplay para o evento e escutei algumas pessoas que estavam na portaria totalmente chocadas e jogando indiretas: "ela vai sair na rua assim mesmo?". O que aquelas pessoas têm de dinheiro aparentemente também têm de ignorância. Mas eu só conseguia rir da situação toda. Eu já estava tão incrédula que aquilo ali não era nada. O evento foi super legal e eu queria ter ficado mais, mas forças maiores me fizeram voltar pra casa antes (e o medo de não conseguir Uber pra voltar, mesmo tendo agendado, pois meu hotel era afastado). Fiquei com vontade até de voltar um dia e com outro cosplay. Duas pessoas me pararam pra pedir foto, o que achei que nunca aconteceria. A única coisa de ruim que aconteceu no evento foi quando estava em um stand procurando alguma coisinha superfaturada pra comprar e dei de cara com um bonequinho de um personagem que ele tinha me dito uma vez que gostava. Fiquei tentada a tirar foto e enviar pra ele, mas me segurei.
Depois que voltei, ainda fiquei martelando por um tempo na cabeça os motivos dele ter feito aquilo comigo. A gente ainda precisa se falar (mesmo que bem pouco) devido ao ambiente que frequentamos, e eu trato como um colega normal, zero intimidade. Eu tive a leve impressão de que ele está começando a abrir caminho para "uma nova vítima", o que fez crescer na minha cabeça a ideia de que o que ele fez foi uma escolha deliberada. Se eu ainda passo na cabeça dele todos os dias, todos os dias ele decide que não vai mais alimentar o que quer que a gente tinha. Que, convenhamos, eu acho que nunca existiu nada.
Eu tive a impressão que ele é um homem mal acostumado, não sei se por causa de ex ou de rolos que ele deve se meter de vez em quando. Ele já me disse e sugeriu algumas nojeiras tão absurdas que eu me perguntava sempre o tipo de submissão que ele tava acostumado a receber, o que mulheres que já passaram por ele não estavam dispostas a fazer para agradar. Não parecia lidar bem com o "não" para certas situações. Acho que meu nojo maior por ele foi quando eu assisti Psicopata Americano enquanto estava no hotel, ele vivia dizendo que se identificava com o protagonista, etc. Não preciso falar mais nada, né?
Eu só tenho a agradecer por ele ter me feito passar por essa experiência. Percebi que sou mais madura do que realmente achava e mais do que um cara da idade dele. Que consigo me virar em situações que poderiam ter me causado altíssimo estresse. Que minha intuição está afiadíssima. Que minha companhia é suficiente. Que eu quero conquistar uma condição financeira melhor. Que eu adoro viajar. Que se ele tentou me destruir, não conseguiu, só abalou um pouco. Que se ele esperava que eu fosse sair mandando mensagem pedindo explicação, ligando, chorando, não cheguei nem perto.
Daria tudo para saber o que ele achou dessa situação toda, mas acho que para uma pessoa como ele, não deve achar nada. Não deve se arrepender do que fez. Não deve se importar. Ele deve estar vivendo a vida como se nada tivesse acontecido, se entupindo das substâncias e olhares de mulheres que ele precisa para ter algum gosto pela vida.
Enquanto isso estou aqui vivendo cada dia e correndo atrás do meus sonhos e com uma história bem bizarra pra contar, em que os lados positivos foram bem maiores do que os negativos. Uma vez, eu falei pra ele que muitas mulheres dão mole pra ele pelo motivo de "não saberem onde estão se metendo" e para ele não se preocupar da influência negativa dele na minha vida, que se eu um dia eu fosse parar no fundo do poço, não seria por causa dele.
Que ele lembre pro resto da vida dessas duas falas minhas. Talvez a minha máscara de menina ingênua foi realmente muito mais poderosa do que as que ele tenta sustentar todos os dias. E com medo, ele fugiu.
Thank u, weirdo.
Comentários
Postar um comentário